Aprisionar o CO2 em formações geológicas profundas é a solução?

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As tecnologias que prometem capturar e armazenar o gás carbônico custam caro e ainda dividem os ambientalistas. Será que elas vão mesmo vingar?

fonte: Planeta Sustentável

A queima do carvão mineral produz um quarto da eletricidade do planeta, mas também é responsável por 40% das emissões de dióxido de carbono em todo o mundo. Tudo indica que o carvão, uma fonte de energia que custa pouco, mas tem alto impacto ambiental, continuará a dominar a matriz energética global. Segundo projeções do governo americano, o consumo de carvão crescerá a taxas anuais de 1,6% nos próximos 25 anos, com destaque para os países em desenvolvimento da Ásia. Se o uso do carvão é inevitável, uma das saídas é neutralizar suas emissões – de maneira radical.

A ideia de retirar o CO2 da atmosfera e armazená-lo em algum lugar seguro não é nova, mas a ameaça da mudança climática acelerou as pesquisas. Há várias técnicas conhecidas de CCS, sigla em inglês para os métodos de retirada do CO2 da atmosfera. Inúmeras outras estão em estudo. A Bayer, por exemplo, está desenvolvendo, com a Universidade de Aachen, na Alemanha, um método para liquefazer o CO2 gerado por uma das maiores termelétricas do país. O líquido é então processado industrialmente e convertido em polipropileno, plástico que pode ser usado na produção de painéis de veículos.

Nos Estados Unidos, um grupo de pesquisadores da Universidade de Cincinnati se inspirou na forma como algumas rãs da América Central constroem abrigos para proteger seus girinos, aglomerando a espuma dos rios. O grupo sintetizou um material esponjoso embebido em enzimas produzidas por esses sapos. Uma vez instalado em chaminés de termelétricas, ele aprisiona o gás carbônico e o transforma em açúcar, num processo análogo ao que ocorre na fotossíntese. Essa espuma sintética, segundo os pesquisadores, seria cinco vezes mais eficiente do que as plantas na conversão de CO2 em glicose. No futuro, os pesquisadores pretendem extrair esse açúcar para utilizar na fabricação de biodiesel.

Mas existem sistemas que operam de forma mais convencional e já estão em funcionamento no mundo real. Tanto o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organismo da ONU que estuda o aquecimento global, quanto a Comunidade Europeia e os Estados Unidos concordam que a CCS é uma das poucas soluções com eficiência comprovada em escala. As unidades de CCS em uso hoje em geral capturam o gás no ponto de sua emissão. O CO2 é então comprimido, transportado e introduzido em formações geológicas profundas, onde fica aprisionado. Em alguns casos, ele é reaproveitado pela indústria petrolífera. Ao ser injetado nos poços em alto-mar, o gás facilita a retirada do óleo – e fica por lá mesmo, armazenado no fundo do oceano. Hoje, há pelo menos 80 projetos industriais de CCS em diferentes fases de implantação, a maioria na Europa e nos Estados Unidos – uma expansão acelerada pelos 26 bilhões de dólares investidos por diversos países na forma de incentivos federais.

Hoje, há pelo menos 80 projetos industriais de CCS em diferentes fases de implantação

Controvérsia
No papel, faz todo o sentido do mundo. Na prática, porém, a CCS ainda tem um longo caminho a percorrer. A tecnologia é relativamente nova e exige grandes investimentos. As maiores unidades de CCS, como a mais antiga delas, o Projeto Sleipner, conseguem resgatar no máximo 1 milhão de toneladas de CO2 por ano, o que equivale à emissão de cerca de 400 000 carros no mesmo período. Desenvolvido pela Statoil, maior produtora global de petróleo e de gás offshore, o Projeto Sleipner retira CO2 do gás natural extraído por uma plataforma da costa da Noruega. Depois, o gás carbônico é reinjetado a uma profundidade de 1 000 metros sob o fundo do oceano, numa formação geológica que tem capacidade de abrigar cerca de 600 bilhões de toneladas de gás. No Brasil, a Petrobras investe em pesquisa e projetos demonstrativos desde os anos 80. A empresa já vem reinjetando gás carbônico em seus campos no Recôncavo Baiano há duas décadas para otimizar a produção de petróleo. É um investimento importante para a Petrobras: junto com o petróleo do pré-sal devem ser liberadas grandes quantidades de CO2 contidas nos poços da bacia de Santos.

Mas a capacidade de todos esses projetos, somados, ainda está muito aquém do necessário para que a CCS tenha alguma contribuição efetiva. “A escala de implantação da captura de carbono tem de aumentar espetacularmente para que haja uma redução significativa das emissões globais de carbono”, diz Steve Chu, secretário de Energia dos Estados Unidos e defensor dessa tecnologia. Ele tem razão. Para sequestrar os 18 bilhões de toneladas de CO2 produzidos pela queima de carvão anualmente seria necessário multiplicar a capacidade instalada pelo menos 2 250 vezes.

Nem mesmo na seara dos verdes a CCS é unanimidade. Seus críticos, como o prêmio Nobel e ex-vice-presidente americano Al Gore, argumentam que a tecnologia validaria os combustíveis altamente poluentes. Gore também afirma que a captura de carbono ainda não provou sua viabilidade financeira e que talvez não possa ser operada na escala necessária para fazer a diferença. Finalmente, ela ofereceria riscos: se ocorresse um vazamento num depósito de gás carbônico, as consequências seriam graves. “A ideia é atraente”, escreve Gore. “Mas, décadas depois de proposta, nenhum governo ou empresa construiu um único projeto em escala comercial capaz de sequestrar grandes volumes de CO2 de uma termelétrica.”

O IPCC estima que a captura de carbono numa termelétrica moderna possa diminuir as emissões em até 90%. Tanta eficiência tem preço. Estudos sinalizam que a tecnologia de CCS continua muito cara e que ela só vingará se houver incentivos financeiros muito fortes. Segundo a Associação Internacional de Energia (IEA), teriam de ser investidos globalmente de 2 trilhões a 3 trilhões de dólares nos próximos 40 anos. O problema, segundo a IEA, é que o valor de mercado das emissões de carbono não cobre os altos custos de projetos de grande escala.

A força-tarefa formada por 14 órgãos do governo americano e encarregada pelo presidente Barack Obama de investigar o assunto chegou a uma conclusão parecida: o desenvolvimento da CCS depende da criação de uma taxa sobre as emissões de CO2. “Sem isso, essa tecnologia não irá a lugar nenhum”, declarou recentemente Lester Lave, que dirige o Centro de Estudos sobre a Indústria de Geração de Energia da Carnegie Mellon University. “Ninguém vai gastar dinheiro, a menos que as emissões sejam penalizadas.”

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